terça-feira, 29 de junho de 2010

Com fuso

Já que você não vai embora tão cedo,
então cedo:

Essa sede
e sedas e cedros...


Já que você não vai.



(Renata Santana)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Dois pesos e duas medidas

dois pesos
e duas libras esterlinas
um dolar cruzado
e a gorjeta das meninas, sem florim
ou xelim
do Quênia às nações desunidas
sobre dois pesos
e duas medidas,
taka
pataca
de graça: ainda, o incomensurável

na medida do meu bolso furado...




(Renata Santana)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

-Todo professor universitário deveria ser condenado à forca em fim de período.


Foi isso que eu pensei nessa segunda-feira às 11 da manhã.

E eu sei que se por um acaso resolvesse fazer um santo inquérito, a minha seita ia ganhar milhares de adeptos em dois tempos. Todo professor na fogueira! Todo PowerPoint filho da mãe no exílio!

Ah, tem dias que você realmente cansa de estar cansaaaaado....

O dia em que você encontra aquela sua amiga super querida, super fofa, vacilando no ponto de ônibus e quando está prestes a abraçá-la com toda a sua saudadee.... ai! O ÔNIBUS!!

Ter que decidir entre um abraço e um ônibus é uma piada. Mas como tudo é relativo mesmo, você está super atrasada e, com muita sorte, vai conseguir almoçar, puf puf, até uma libriana indecisa como esta gata tem que funcionar:

- CDUUuuuuu, vai subiiiir motô!!

É claro que este berro não foi meu.

Mas o brado do gasguito ao meu lado (outro maluco descabelado que entraria fácil na minha seita) foi funcional para que a minha ficha caísse (ou meu cartão funcionasse, ou meu chip encaixasse, bem, como os senhores preferirem...). E zás.

A criatura que sobe num ônibus depois de um abraço torto numa amiga que merecia muito mais, e tem que abraçar a juventude suada e imprensada do Colégio Aplicação jus-ta-men-te na hora em que a fome é um desespero ou uma criança a qual você caaaanta pra que ela pegue no sono rápido e não dê muito escândalo, aquele horário, justo aquele horário em que o sol na sua cara lembra que o seu óculos de sol quebrou há 2 meses, e tudo derrete, e tudo compete: o dinheiro amassado, a moeda que cai, o livro que escorrega, as horas que saltam, e você, de repente, tomada de assalto: - o que porra vale a pensa nessa vida?

Bem, naquele momento, somente um assento vazio acenando e sorrindo pra mim!

Pronto. Eu não precisava de mais caimentos de ficha, mas os tive. Afinal, já dizia Paulo bigodes de gato Leminski: “tudo que respira, conspira”.

Feliz por concluir que eu havia nascido para estar sentada naquele assentinho e que, então, já teria cumprido toda a minha missão na Terra ao chegar àquele pódium.... aí, bem, aí, a rádio Recife maldita seja ela faz tocar aquela música que você adorava na adolescência...

Uns minutos de epifania e você está fudida. Pronto. À forca também a Rádio Recife!

A música tem a pachorra de invadir o seu único psudo momento de prazer naquele assento quente e sujo só pra dizer que você está perdida. Só pra dizer o quanto aquele assento é quente e sujo. Só pra fazer você lembrar da canção, de quando você a cantava e de tudo o que você acreditava há alguns anos atrás. De tudo o que você abandonou...

Aquela dor pelo tempo em que você a cantava junto com a abertura da novela, a dor de lembrar que você gostava de novela e nunca mais teve essa regalia boba, ai, a dor pela perda do ócio criativo, pelos amigos, aqueles, que você jurava que iam ser os padrinhos do seu casamento e do batizado dos seus sete filhos, aquela saudade atravessada na garganta e atropelada por um caminhão de compromissos, exatamente aquela... em que parte da vida a gente começa a se trair?

Se o ônibus balançasse meeeenos eu tinha me rendido e feito aquela Lista do Osvaldo(Montenegro). ps: um amigo meu fez e nunca mais voltou a si...

Forca à Rádio Recife e ao set list dela e forca também à pessoa que agiu de má fé (tenho ctza) e escolheu essa música dessa década para tocar justo neste horário das grandes desilusões, e se foi alguém que pediu por telefone (se é que ainda existe isso) forca a ela e todas as suas gerações.

Em 25 minutos de percurso, conseguiram arrasar as minhas certezas e toda a agenda arquitetada para uma segunda-feira cheia de vigor e sentido transformou-se num amontoado de obrigações que se empurra com a barriga. blah.

O almoço é: três bananas. O atraso: 28 minutos. Mas você ainda sorri para os colegas e preceptores de estágio, coordenadores e suas reuniões em ciiima da hora em que você, finalmente, ia largar. A única hora legal do dia e querem boicotar... a música na cabeça, você perdida, o dia sem sentido, o cabelo invadido pelas pontas duplas, e neste momento a depiladora me liga: - você morreu?


Forca! Comecemos pelos professores, depois a rádio Recife (e não me peçam pra dizer qual foi a música que eu não vou dizer) e, só então, retorne a ligação da mocinha da depilação (agora que você sabe o que dói de verdade nessa vida) e tenham um bom dia.


(Renata Santana)

terça-feira, 27 de abril de 2010

E por falar em mangaba,

senhores, eu apresento para o vosso deleite um dos meus poemas preferidos do escritor recifense Biagio Pecorelle.



Na cama, depois da praia.

Eu tramo hiatos no relicário do destino
talvez para adocicar a ação pétrea do tempo
talvez apenas para o adornar de miçanga
mas tu me sangra, tempo, sempre,
pela veia nau da nostalgia...

Eu lembro de Jandira,
sentada no beliche
prendendo cabelo e
fuçando na revista a
exuberância de Jocasta -
melhor dizendo, a lascívia de Vera Fischer.

que pena,
Jandira era muito mais.
coçava minhas cataporas
trazia pirulitos de helicóptero
pena que...

Minha bazuca de ovos falhou
já perto do céu,
na cobertura do edifício.
meu irmão chegou e tomou meu juízo pela orelha.

E Jandira?
o que fez?

calada estava
e espanando os móveis da sala
ficou.

se a mocidade fosse um copo de suco
(qualquer suco!)

colaria sempre um lábio no outro,
feito mangaba...
feito Jandira
na cama, depois da praia,
vacilando de maiô.

(B. P.)




___________________


Diga mais nada.
(Renata Santana)










terça-feira, 20 de abril de 2010

Feito mangaba

Já alguns anos eu desaprendi a escrever beijo. B-E-I-J-O. Alguma coisa me incomodava nessa palavra. Não sei se era esse excesso todo de vogal uuggghh que a torna uma palavra.... feia. Primária. Pobre. nhen. Sem graça.
Só o contexto a salvava.

Lábios, por exemplo, é muito mais macia e equilibrada. É sensual e não precisa gritar!
Lábios sussurra, beijo grita.

Beijo é descontrole mesmo.

Os gregos possuiam um vocabulário carregado nas vogais. E eu pondero, "aii, o beijo grego devia ser uma coisa louuuca" (se bem que eu prefiro a pegada dos romanos..hihi) enfim.. beijo por beijo zás: eu implicava!

Beijo é cheia de vogais, mas quem fala alto são as consoantes.
B e J são gri-tan-tes nessa palavra.
Taí, as vogais são maioria, mas ainda assim cedem lugar pras consoantes. bobas muito bobas.
Taí mais ainda,
beijo cede. Cede o tempo todo. Beijo é gasguito e desequilibrado.

E foi aí, senhores, que eu mais uma vez me surpreendi comigo mesma. (e me desculpem a redundância, é só pra ilustrar)

Já cheia de escudos literários, implicância renitente e infantil fiquei de boca aberta para beijo.
Sim, refém. Por alguns segundos refém.
Ele veio desesperado como só ele pode ser,
desequilibrado, correndo, cabendo dentro do frêmito e, os lábios como grandes gentlemans, calaram-se em respeito a loucura alheia.

O beijo é um bandido covarde no jardim de infância.

Eu me calei quando ele me assaltou, e permaneci calada durante a noite inteira.
O beijo foi roubado.
Pedi desculpas, sinceras desculpas à palavrinha. Entendi finalmente porque grita, porque vogal, porque cede, meu deus, eu havia cedido também. Eu cedi pro desequilíbrio. Pro teu beijo sem gênero.
Indefenido.

Eu só sei, senhores, que agora não há mais ranço. Não há ranço com beijo.

E esse beijo que veio gritando e me tomou de assalto num Cais urbano lotado, me deixou, naquele momento, desarmada. Sem ranço.
Entendi beijo, entendi, o porque das suas consoantes irritantes. Zunindo zunindo dentro do ônibus vazio.

Sem ranço algum.
Só restou os lábios e sua cordial comunicação interna. Colando colando entre eles.
Os lábios colam. Os lábios colam sozinhos e aos sussurros. Suco de mangaba, eles me dizem.
E eu escuto os sábios.

Eu escuto o lado sábio dos lábios e repito,
suco de mangaba, o teu beijo é.

É doce, cola e permanece.

Ah, beijo, coisa boba, finalmente, entendo quem tu és!



(Renata Santana)

sábado, 17 de abril de 2010

Notinha do Caderno C diz

que o programa Ensaio da TV Cultura mostra o lado intimista de Fernanda Takai...
e eu me pergunto,
e quando ela mostrou o lado NÃO intimista dela??

domingo, 11 de abril de 2010

Eu lembro da Rizzo.

Poderia me lembrar de muitas fora a Rizzo. Tenho vários exemplos. Mas por alguma razão, hoje, somente a lembrança do dilema da Rizzo bate latente na minha cabeça. Talvez por ser um dilema musical. E música quando gruda, gruda.

Pelo motivo real em cima de fatos ficcionais é que afirmo a sentença:
nós preferimos as vilãs.

E por isso, na primeira oportunidade, fazemos cara de má na frente do espelho e tiramos dezenas de fotos com a nossa Sony caseira.... Mas,

Who’s bad?

Ser a mulher inatingível cansa. Cansa a beleza.

(E deve ser por isso que a madrasta má da Branca de Neve é obcecada em voltar a ser bela)

Ufs.

Já disse e reitero: É ótimo bancar a vilã, porém, o coração não usa salto Prada.
E quando percebemos o pobre coração correndo descalço é hora de você, a dona dele, também pendurar as chuteiras. Tirar o salto é descer do topo que nos torna inatingível.

Alguns encaram como uma derrota, como eu, até então. Mas a novidade, senhores, e também a dica que lhes dou, é: aceite o seu coração apaixonado.
E não só isso.
Aceite a sua situação de total fragilidade porque ela faz parte do pacote.
O pacote do coração apaixonado é cheio de surpresas. Viva cada uma delas.

Pagu, a imbatível e charmosa (e pegadora) militante comunista, já no começo do século XX dava pinta de mulher inatingível, e se autodefinia, companheiros, como
“Uma mulher de ferro com zonas erógenas e aparelho digestivo”.

Onde está o coração dessa moça? Escrevendo para o Partido na Rússia?
Claro que não.
Tava batendo, apaixonado por todos os homens que amou, mas com um salto plataforma que o deixava camadas e camadas acima da vã superfície.

Ai, como eu quero a vã superfície. Afinal, viver como que nas nuvens nos torna distantes da realidade. Do real. Do tangível.

Lembram do pega-pega congelou? Só saíamos do estado estático, do gelo, da inércia, quando alguém nos tocava. (Ahh como são felizes os exemplos infelizes).

É nisso que eu me lembro da Rizzo. Pobre Rizzo. Na canção-tema, curtinha curtinha, que cantava na trilha chiclete de Grease, sim, aquele musical que assistimos 100 vezes na Sessão da Tarde, ela, a garota má, tentava se equilibrar no salto.

Rizzo, meu deus, logo Rizzo. Rizzo sem vestido de bolinhas. Rizzo sem uma franja boboca na testa. Rizzo acima do bem e do mal, confessava solitária em sua canção que seria capaz de fazer inúmeras coisas improváveis e impossíveis, como ser um broto caseiro e certinho, mas que jamais, nunca, nunca, seria capaz de chorar na frente do amado.

É mais possível fazer o impossível do que derramar as suas lágrimas na frente dele.

Demonstrar fraqueza? Jamais!

Lá lá lá mas essa lua, mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo lá lá lá. É.
Drummond fica fraco e põe a culpa na lua e no conhaque.

Porque não assumir?!

Se fugimos desse estado de entrega e suas cartas ridículas é porque algo nos amedronta.
Só fugimos daquilo que nos mete medo. Fugimos do novo e do desconhecido.
E o medo é a não-vida.
O coma.

E o outro lado? O outro lado é aquele menino da escola com quem você repartiu o lanche, mas depois que rolou um beijo naquele dia, no recreio, ele passou a se esconder de você. Inclusive, fiquei sabendo que mudou de colégio.

Nenhuma sociedade é mais medrosa do que a moderna. Os homens e mulheres modernos.

A síndrome da Regina Duarte está, finalmente, me deixando.
Eu não tenho mais medo.
Eu não fujo mais.
E lamento muito por quem ainda o faz.

Decidi, senhores, decidi que não tenho mais medo da entrega.
Tiro agora o salto para quem chegar.
Quem chegar vai me encontrar descalça, os pés felizes vivendo bactérias e anticorpos. Acendi a luz e, vejam só, não há monstros debaixo da cama. Quero outra vez olhar e, tudo claro, ver que embaixo da cama só resta mesmo um par de saltos. Uma plataforma gigante, gasta, puída, fora de moda e que não me cabe mais.
Não me diz respeito.

Tantos anos apaixonada pela Luzia de Drummond (“tão alta que o beijo não alcançava”), agora, me parece vital deixar o quarto escuro da UTI, sem seqüelas de traumas, quedas e feridas anteriores, para me apaixonar por tudo aquilo pelo qual meu coração bate.
E bate livre, sem débitos e pagando pra ver. Afinal, viver a prestações pode sair muito mais caro.



Vídeo da Rizzo no link,
http://www.youtube.com/watch?v=RGUfn930F0Y&feature=related



(Renata Santana)